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Cleuzinha pequena

O Hospital captou 28 órgãos e tecidos, de janeiro a maio deste ano

As mais diversas áreas da saúde comemoram, neste mês, o Setembro Verde. É uma campanha destinada ao incentivo à doação de órgãos e tecidos, que, também, possui uma data comemorativa específica: 27 de setembro. O Hospital Universitário Regional de Maringá (HUM) não poderia ficar de fora. Por essa razão, conversamos com a Cleuza Maria Torini, que está há 21 anos no HUM e trabalha na Divisão de Apoio do Hospital. Há cerca de 10 anos, ela recebeu um transplante de córnea. As córneas não são órgãos, fazem parte dos tecidos humanos que podem ser doados, como a pele. Por isso, ela é a personagem que vai nos ajudar a celebrar o Setembro Verde.

A servidora do Hospital nos conta que, desde a infância, já havia sido detectado um problema grave em sua visão. Uma de suas professoras percebeu a dificuldade que ela tinha e recomendou que a mãe dela a levasse a um especialista. “Então, eu comecei usando óculos com um grau altíssimo. Meu problema era astigmatismo e miopia muito elevados. Como foi aumentando muito, eu cheguei a fazer uma cirurgia, porque tinha um dificuldade muito forte de autoestima por causa dos óculos, que tinham lentes muito grossas”, explica Cleuza Maria.

Mas a cirurgia não teve sucesso e, com o passar do tempo, o problema foi piorando. Cleuza foi perdendo a visão, o que dificultava até a sua locomoção, já que pilotava uma motocicleta. Aliás, foi por quase sofrer um acidente que ela voltou a procurar um especialista. E, desta vez, foi dito que a única saída para resolver o problema era o transplante de córneas.

“Assim, fiz os exames e até acabei esquecendo que estava na fila. Demora porque a gente tem que ser compatível com o nosso doador. Então, quando surgiu a pessoa compatível já tinha se passado dois anos desde a minha candidatura. Eu estava até aqui, trabalhando no HUM, quando uma pessoa chegou e disse que eu precisava me preparar, porque minhas córneas tinham chegado”, disse a servidora.

Cleuza lembrou que foi um momento de grande tensão emocional. Não sabia se ria ou se chorava, mas, apesar de tudo, estava agradecida. Ela conta que, depois disso, teve que se preparar aos exames pré-cirurgia e, em pouco tempo, estava recebendo a córnea. “Não vai anestesia, só um colírio; é um procedimento rápido”, esclareceu Cleuza.

A recuperação – Uma semana depois, Cleuzinha, como a servidora é conhecida no HUM, já estava aproveitando do resultado da cirurgia. “Eu logo comecei a ver diferente, detalhes da terra, por exemplo, da composição da nossa terra vermelha. Mas a recuperação, na realidade, é um ano, um ano e meio, porque os pontos não são retirados na hora. No meu caso, foram 16 pontos. Eles vão se soltando sozinhos e, quando isso acontece, a pontinha do fio começa a arranhar a pálpebra e eu tinha que vir imediatamente no HUM para o médico retirá-lo. Conforme os pontos vão sendo retirados, a córnea vai se ajustando no olho e a gente enxerga cada vez melhor. Hoje, vejo coisas que eu não via”, comemora. “Quando eu falo sobre isso, me emociono bastante, porque é uma coisa muito forte, que me mudou muito”.

Família dos doadores – Ao ser indagada sobre como ela encara as famílias que doam os órgãos e tecidos dos seus parentes, Cleuzinha diz que pensa que essas “são de pessoas maravilhosas. Mesmo tristes porque viram seu ente querido vir a óbito, pensam em fazer bem a outras pessoas, mesmo sabendo que algumas emoções vão ser mexidas. Eu acho, que elas possuem um coração enorme”.

E Cleuzinha deixa ainda um recado para essas famílias: “eu acredito que no momento deles estarem doando os órgãos, até podem passar por um sentimento estranho, de receio. Mas eu creio que o sentimento que vem, depois, é de uma sensação de leveza. Por ter visto que seu ente querido foi, mas tem uma parte dele viva ainda nesta Terra. Eu acho até que ajuda no momento do luto”, concluiu Cleuzinha.

setembro verde

CIHDOTT – O Hospital Universitário conta com uma Comissão Intrahospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT). A coordenadora, a enfermeira Rosane Almeida de Freitas, disse que a comissão é formada por uma equipe multidisciplinar, ou seja, é composta por assistentes sociais, psicólogos, médicos e enfermeiros, que prestam apoio, tanto emocional como médico, aos pacientes e, principalmente, aos familiares a partir do momento que se identifica um potencial doador.

“O nosso foco do Hospital está, na verdade, no atendimento familiar. A partir do momento que a família está esclarecida e acolhida, com todas suas dúvidas sanadas, eles se sentem à vontade para realizar a doação”, explicou Rosane Freitas.

Esse trabalho vem dando certo. O Brasil tinha um alto índice de recusa familiar, que vem diminuindo gradativamente. “No HUM, por exemplo, de janeiro a maio de 2018, 73% das famílias entrevistadas autorizaram a doação de órgãos e tecidos. Foram captados 28 órgãos e tecidos a partir da autorização das famílias doadoras”, concluiu a coordenadora.

* Reportagem com colaboração do estagiário Guilherme Vinícius Perusseli.

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