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Seg, Abr

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Lua Lamberti de Abreu defendeu a dissertação de mestrado montada de Galathea X, a drag queen dela — Foto: Lua Lamberti de Abreu/Arquivo pessoal

 

Primeira travesti a conquistar o título de mestra pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), no norte do Paraná, Lua Lamberti de Abreu, de 24 anos, usou na pesquisa a figura da drag queen para discutir uma educação mais receptiva às diferenças.

Em uma defesa de dissertação performática, na última sexta-feira (22), Lua foi montada de Galathea X, a drag queen dela. A jovem concluiu o mestrado do Programa de Pós-Graduação em Educação da UEM.

Formada em artes cênicas, Lua disse que considerou em sua pesquisa o fato de as pessoas trans não serem bem-vindas aos espaços da educação e abordou a inclusão ao invés da exclusão desses estudantes.

“É um fato que as pessoas trans não são bem-vindas nesses espaços educacionais. Nem na escola, nem na universidade, nem na pós-graduação. O fato de eu ser a primeira já ilustra isso. Porque não fui eu que inventei o mestrado, não fui eu que inventei ser travesti, portanto, onde estavam as outras?”, pontua.

Segundo a jovem, ela pensou na figura da drag queen, como alguém que usa a arte para agregar elementos externos e se “transformar” em uma pessoa diferente. Esta foi a forma encontrada pela pesquisadora para abordar uma possível transformação também na pedagogia, que chamou de “Pe-Drag-Ogia”.

“É pensar em formas inventivas de fazer uma pedagogia que seja convidativa e não violenta, que seja plural e não diferenciada – no sentido de diferenciar pessoas, no sentido de respeitar e positivar essas diferenças”, afirma.

Lua após a defesa da dissertação, na sexta-feira (22). Da esquerda pra direita: doutora Megg Rayara de Oliveira; mestra Lua Lamberti de Abreu; doutora Cássia Furlan; doutora Eliane Maio (orientadora); doutora Roberta Stubs (coorientadora) — Foto: Isabella Souza/Arquivo pessoal

A professora Eliane Maio, orientadora de Lua, explica que essa exclusão social, que pode começar na escola e levar as pessoas trans para as ruas, contribui para uma triste estatística: a estimativa média de vida de travestis é de 35 anos no Brasil, enquanto, segundo ela, a estimativa média de vida da população em geral chega a 80 anos.

“Como a escola vê essa pessoa drag? Como que se aprende a ser drag? Quem ensina e quem expulsa? Então o olhar do trabalho da Lua é isso: é dizer-se uma pessoa drag. E o que a escola tem feito nesse contexto? Atrapalhado, acolhido, expulsado?”, questiona.

De acordo com Eliane, há seis anos, ela colaborou com a criação de uma portaria na UEM, que possibilita o uso do nome social por estudantes trans. A professora destaca ainda que, até hoje, quatro travestis e um homem trans concluíram a graduação.

Lua, que iniciou o processo de transição para travesti justamente durante a graduação, afirma foi privilegiada porque recebeu muito apoio.

“Tive uma família que não me violentou, que me entende e que me aceita. São acessos que, infelizmente, nem todas as pessoas trans têm”, afirma.

Eliane destaca ainda a importância de dar visibilidade para as pessoas trans, e a luta dela para que as pessoas ocupem o lugar que querem ocupar.

“Quanto mais visibilidade, a gente vai rompendo estereótipos, preconceitos, paradigmas. A gente abre os olhos contra os preconceitos, isso é o mais importante”, disse.

E foi rompendo paradigmas que Lua usou na pesquisa dela uma metodologia feminista, na qual optou por autoras mulheres que discutem os temas abordados. Ela ainda convidou para a banca avaliadora da dissertação a doutora Megg Rayara Gomes de Oliveira, a primeira travesti negra conquistar o título de doutora na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em 2017.

“Ser diferente não é um problema – então a gente precisa entender as diferenças e não anulá-las e não normalizá-las. As pessoas não precisam ser corrigidas, elas precisam ser ensinadas, e para isso funciona a educação”, conclui Lua.

Dia Nacional do Orgulho Gay

Nesta segunda-feira (25), é comemorado o Dia Nacional do Orgulho Gay. Para Lua, mais que comemorar as conquistas, o dia é uma forma de honrar as pessoas que morreram justamente por fazerem parte de grupos minoritários, seja da comunidade LGBT, de movimentos feministas e antirracistas.

“É sempre uma luta de muita dor. A gente não faz movimento de orgulho porque a gente acha muito bonito ser quem a gente é. A gente faz porque a gente ainda acha importante ser quem a gente é, mesmo que as pessoas queiram a gente mortas por isso. Então, isso é político, isso é importante”, declarou a mestra.

Lua ainda pontua que é feita uma comemoração em um sentido mais carnavalesco para positivar as outras vidas e demonstrar que, mesmo com todas as dificuldades, ninguém vai desistir de lutar.

Para a jovem, o fato de a defesa da dissertação de Lua ter acontecido perto do Dia Nacional do Orgulho Gay e no momento político atual, também teve um peso.

“Quer dizer que com todas essas investidas contra os direitos humanos, contra a questão LGBT, contra o estudo de gênero de maneira geral, a gente ainda assim faz um esforço de estar lá, de existir e de afirmar nossa presença, nosso lugar, nossa competência, nossa produção de ciência”, destaca.

https://g1.globo.com/pr/norte-noroeste/noticia/2019/03/25/primeira-travesti-mestra-pela-uem-usa-figura-da-drag-queen-para-discutir-educacao-mais-receptiva-as-diferencas.ghtml