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Mulher do presidente pode ajudar a vencer resistências contra o governo, segundo pesquisadores 

O papel exato que a nova primeira-dama vai desempenhar ainda é incerto, mas entendedores de primeiro-damismo não hesitam em dizer: Michelle Bolsonaro reúne os adjetivos desejados para a função e pode virar um ativo do governo de seu marido.

Para pesquisadoras do tema ouvidas pela Folha, a mulher de Jair Bolsonaro —alinhada ideologicamente ao parceiro e desinibida sem ser indiscreta— tem a chance de reavivar a função no país e, a depender da performance, gerar ganhos políticos para o marido.

A primeira-dama, Michelle Bolsonaro, acompanha o presidente em sua posse no Planalto - Danilo Verpa - 1º.jan.2018/Folhapress

Com o aceno à área social, materializado durante a posse com seu discurso em Libras (língua brasileira de sinais), Michelle reitera a vocação histórica do posto que assumiu, de cuidar dos desamparados.

“Ela até agora dá pistas de que dará continuidade a essa tradição, mas não sabemos exatamente como”, diz a historiadora Ivana Guilherme Simili, autora do livro “Mulher e Política: A Trajetória da Primeira-Dama Darcy Vargas”.

A mulher de Getúlio Vargas teve papel decisivo na inclusão da assistência na agenda obrigatória das companheiras de presidentes, acrescenta a também professora da Universidade Estadual de Maringá (PR).

“Darcy criou a Legião Brasileira de Assistência, que trouxe a ideia de trabalho feminino voluntário, em nome das causas sociais”, diz Ivana.

Especializada na relação entre as primeiras-damas e a assistência social, a antropóloga Iraildes Caldas Torres vê risco de retrocesso caso Michelle leve o governo a adotar políticas assistencialistas, com viés mais filantrópico do que de combate à desigualdade.

“É um problema se os projetos ficarem restritos à imagem da primeira-dama, sem um trabalho feito por profissionais de políticas públicas”, afirma a docente da Universidade Federal do Amazonas. “Vai para o âmbito da benemerência, o que é ultrapassado.”

Michelle não foi nomeada para cargo no Planalto. No discurso no parlatório, vocalizado por uma auxiliar enquanto a primeira-dama fazia os gestos da língua para surdos, a terceira esposa de Bolsonaro afirmou querer ampliar o “trabalho de ajuda ao próximo que sempre fez parte” de sua vida. Não entrou em detalhes.

Agradeceu a Deus por “essa grande oportunidade de poder ajudar as pessoas que mais precisam”. E falou que surdos e outras pessoas com deficiência “serão valorizados e terão seus direitos respeitados”.

A ideia de uma primeira-dama de perfil clássico, sem gestos de ruptura ou inovação, dentro de um governo conservador, soa para Ivana descolada dos debates mais contemporâneos sobre feminismo.

“Não dá para falar em feminismo. O modelo dela é o da esposa que acompanha, apoia”, observa, lembrando que Michelle não tem carreira desvinculada da do parceiro.

“Ao beijar o esposo, como se refere a ele, durante o discurso, ela tem um comportamento totalmente tradicional”, completa a socióloga Fátima Pacheco Jordão, estudiosa das relações de gênero.

“Não ficou claro se ela terá um protagonismo. No momento, ela se coloca a reboque do marido, embora busque códigos de comunicação mais amplos, com novos segmentos”, afirma ela, que é fundadora do Instituto Patrícia Galvão, de causas feministas.

Iraildes pensa diferente. A autora do livro “As Primeiras-Damas e a Assistência Social: Relações de Gênero e Poder” diz que Michelle “é uma mulher forte” e isso aparece no pronunciamento feito à nação. “Ela diz a que veio, tem uma personalidade, não é uma pessoa absolutamente comandada por homem.”

A afetividade em público com o presidente da República tem potencial de atrair ainda mais popularidade, na visão de Iraildes. O beijo no palanque, porém, passou da conta, na opinião da professora. “Não era ali o momento. Parlatório é espaço solene”, fala.

A reação dos apoiadores diante da cena, no dia 1º de janeiro, foi oposta: a multidão em Brasília aplaudiu e vibrou com o selinho presidencial.

Segundo acadêmicos, pode vir da espontaneidade e do carisma de Michelle a maior contribuição dela para o marido.

“Ela tem conseguido uma identificação grande com as pessoas”, diz o historiador Jaime Pinsky, em consonância com o que se viu nas redes sociais no dia da posse: até detratores de Bolsonaro deram o braço a torcer e admitiram que Michelle pode ser uma surpresa positiva —sobretudo se estimular, como prometeu, avanços para surdos e outros grupos marginalizados.

“Ela parece aquela vizinha de quem a gente gosta. As mulheres sentem empatia rápida, não a veem como dona de uma beleza tão grande a ponto de ser ameaçadora”, diz ele.

Pinsky, que já escreveu artigos e livros sobre a cultura nacional, argumenta que Michelle agrada mais à classe média do que antecessoras como Marisa Letícia, mulher de Lula (PT), e Ruth Cardoso, casada com Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

“Marisa era associada ao povo. A professora Ruth passava a ideia de uma mulher da elite intelectual”, diz ele. Ruth, no governo de FHC, chegou a ser acusada de fazer “masturbação ideológica” pelo então ministro Sergio Motta.

Já Michelle, diz Pinsky, tenta se apresentar como mais próxima da população feminina de classe média. “Ela exibe uma desenvoltura que nenhuma das duas tinha”, afirma.

Os predicados da nova primeira-dama levam parte dos analistas consultados pela Folha a crer que a imagem pública dela pode eventualmente funcionar como um contraponto a erros e decisões impopulares do governo.

Para virar um trunfo no campo político, antes será necessário consolidar uma imagem favorável, palatável até a críticos. Se isso acontecer, ela poderá ajudar a vencer resistências contra o marido em situações de crise.

“Historicamente, a primeira-dama de um país desempenha esse papel de contemporizar, amenizar, zelar”, diz Ivana.

“É uma figura que contém um potencial de persuasão e de comunicação muito forte no âmbito governamental. Ela se transforma num modelo a ser seguido, como foi Michelle Obama nos Estados Unidos.”

Para Fátima Jordão, no entanto, o poderio da mulher do presidente é limitado. “Na percepção da população, o que pesa mesmo são as medidas práticas do governo”, diz a conselheira do Patrícia Galvão.

“Se as decisões do marido afetarem o bolso e os direitos do povo, não há primeira-dama que salve.”

Algumas primeiras-damas do país

 

Darcy Vargas

(1930-1945 e 1951-1954)

Fixou relação do posto com a assistência social, ao criar a Legião da Caridade e a Legião Brasileira de Assistência

 

Maria Tereza Goulart

(1961-1964)

Primeira-dama mais jovem do país, aos 21 anos, ela era exaltada pela beleza e comparada a Jackie Kennedy

 

Rosane Collor

(1990-1992)

Presidiu a Legião Brasileira de Assistência e deixou o posto após denúncias de corrupção

 

Ruth Cardoso

(1995-2002)

Avessa ao rótulo de primeira-dama, antropóloga criou o Comunidade Solidária e foi uma das mentoras do Bolsa Escola

 

Marisa Letícia

(2003-2010)

Abdicou do trabalho assistencial e encarnou papel de companheira do marido em viagens e recepções

 

Marcela Temer

(2016-2018)

Com passagem breve pelo posto, buscou protagonismo com projeto de assistência a crianças, que resultou tímido

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/01/moldada-ao-primeiro-damismo-michelle-bolsonaro-desponta-como-trunfo.shtml