Folha de Londrina
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Herivelto Goulart: ‘‘As aves trazem problemas, sujeira, mas onde elas vão viver?’’

Os corredores ecológicos de árvores em avenidas e ruas de Maringá representam um ecosistema urbano desconhecido até pela ciência. Mesmo não havendo levantamento sobre a vida de aves, morcegos, gambás, macacos entre outros, estes animais desafiam a própria lógica da sobrevivência se escondendo em construções urbanas e nas próprias árvores, que oferecem comida, refúgio e segurança. O professor e doutor em Ecologia da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Herivelto Goulart, prega a necessidade de convivência da população maringaense com os animais ''excluídos'' do campo pela força das culturas de soja, milho e trigo.


Folha - O que significa esta quantidade de árvores dentro da área urbana?
Herivelto Goulart - Maringá por ser uma cidade arborizada, constitui-se num refúgio de animais, ou seja, eles acabam vindo e vivendo aqui em função desta arborização. Estes animais acabam tendo na cidade o que talvez não tenham no campo.


As árvores acabam oferecendo frutos, sementes e abrigos para estes pássaros e animais?
É preciso se pensar que há um processo em cadeia. Nesta árvores, por exemplo, há insetos. De abelhas e de insetos que visitam as flores, que acabam servindo de alimentos para aves.


Quais os animais e aves que estão nestas árvores?
Bem-te-vi, sanhaço, anu branco, anu preto, alma-de-gato, siriri, tejo, saíra, saíra do campo, reloginho, sábia, sábia poca, sábia-da-larangeira, entre outras. Embora não tenha um levantamento, são muitas as espécies de animais e aves presentes na região urbana. E não só aquelas que vivem permanentemente, mas as que passam por aqui.


Que tipo de pragas estes animais podem evitar para os humanos nos centros urbanos?
As aves têm um amplo espectro alimentar, considerando as diferentes espécies de árvores. Você tem aves carnívoras, aves insetívoras, flugívoras. As que são insetívoras acabam consumindo, todo e qualquer tipo de inseto que elas encontram, inclusive as própria pragas, por exemplo, as baratas, cupins, formigas etc.


Há falta de conscientização da população?
Ao mesmo tempo que se sabe sobre a importância da arborização numa cidade, infelizmente, as pessoas se sentem incomodadas pela quantidade das folhas que caem, reclamam da sujeira. Há pessoas que envenenam árvores, é uma questão absurda.


Por causa das construções, as árvores sofrem alguns problemas?
Aqui existem as calçadas ecológicas, onde se destina uma parte para plantio, mas mesmo assim existem problemas. O calçamento faz com que as raízes fiquem enfraquecidas e há frequente queda de ávores, não só em tempestade com ventos, mas até em condições normais.


É preciso haver um acompanhamento fitossanitário?
Eu creio que sim. O que se alega por parte do serviço público é a quantidade de árvore que a cidade tem, ora mas esta é a característica. Maringá se canta e encanta por causa das árvores, mas isto tem um preço. Não exatamente o preço financeiro ou orçamentário, mas o preço da manutenção disso. É um investimento em sanidade e que isto vem naturalmente em benefício da população.


Evita uma série de doenças?
Não se pode ser romântico em acreditar que na cidade vamos ter as mesmas condições do campo, mas é perfeitamente possível conviver com isso. Isto demanda educação. É preciso sempre uma preocupação do poder público e da população, e haja uma relação harmoniosa entre estas partes. As aves trazem problemas, sujeira, mas onde elas vão viver? Viver não é fácil, mas conviver é muito mais difícil. Mas aí reside a arte do viver bem.