Sidebar

16
Qua, Out

Folha de Londrina
Tools


Para pedagoga, educação é uma ponte importante de acesso aos outros direitos fundamentais do povo indígena


Fotos: Fábio Ciquini

Elis Regina cursa Odontologia na UEL: ‘‘A questão do mercado de trabalho deve ser discutida’’


Conhecer a realidade do índio que busca um curso superior e discutir melhores políticas de acesso e permanência a esse estudante. Esses foram alguns objetivos que motivaram a Pró-Reitoria de Graduação (Prograd) da Universidade Estadual de Londrina (UEL) a realizar o 1º Encontro Nacional de Educação Superior Indígena no Paraná. O evento foi realizado ontem, com a participação de 100 pessoas, entre sociólogos, antropólogos, pedagogos e acadêmicos indígenas de Londrina, Maringá, Ponta Grossa e Curitiba.

Vagas suplementares para estudantes indígenas no Paraná existem desde 2002. Atualmente, o Estado conta com 49 vagas reservadas para indígenas todos os anos. Além do acesso à universidade, o governo estimula a permanência do estudante, concedendo uma bolsa de estudo no valor de um salário mínimo mensal até a conclusão do curso. Apesar de estarem satisfeitos com a oportunidade, a maioria dos estudantes indígenas avalia que ainda é preciso ser feito mais.

A estudante do 5º ano de Odontologia da UEL, Elis Regina Jacintho, 26 anos, da Aldeia Laranjinha, próximo ao município de Santa Amélia (63 km ao sul de Cornélio Procópio), disse que teve sorte de seu pai trabalhar na Funai em Londrina. Por isso ela tem onde ficar na cidade. ''Muitos não tem a mesma oportunidade. A questão financeira também é bastante complicada. Outra coisa que eu acho que deve ser discutido é a questão do mercado de trabalho porque muitos, quando se formam, não conseguem emprego'', disse.

A diretora de Apoio à Ação Pedagógica da Prograd e também presidente da Comissão Universidade para os Índios (Cuia), Silvana Drumond Monteiro, explicou que a comissão realiza um trabalho de acompanhamento didático e pedagógico aos estudantes com o propósito de viabilizar a permanência e a integração desses estudantes nos cursos. ''Muitos alunos passaram a conhecer projetos que podem ajudá-los no seu desenvolvimento acadêmico'', comentou.

Mas muitos projetos ainda estão em fase inicial e as experiências ainda são recentes. É o que explica a pedagoga e coordenadora da rede Brasileira de Instituições de Ensino Superior com Programas e Projetos para Povos Indígenas, Hellen Cristina Souza. Ela lembra que os primeiros indígenas brasileiros ingressaram na universidade na década de 1980 em Brasília. Desde então, houve um ''grande avanço'' quanto a participação do movimento, mas ela acredita que ainda é preciso um maior envolvimento dos índios.

''Hoje, mais de 30 universidades brasileiras apresentam programas voltadas a esse público, mas a melhoria dessas ações podem se efetivar ainda mais com o envolvimento desses estudantes. São eles que vão poder apresentar suas verdadeiras necessidades'', comentou.

Hellen reforçou ainda que o acesso à universidade está relacionado aos processos migratórios e a urbanização. Para ela, a educação é uma ''ponte importante de acesso aos outros direitos fundamentais do índio''. ''O índio é visto como aquele que deve viver na aldeia. A participação dele na universidade é uma contribuição importante até para ser repensada a forma de ensino na academia. Há alguns anos, muito se falava que os índios se formavam com o objetivo de abandonar suas raízes, mas isso está sendo comprovado que não é verdade. Cem por cento dos índios almejam voltar para suas aldeias e atuar junto de seus povos''.

A estudante de enfermagem da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Cristina Bandeira, 26 anos, da Reserva Apucaraninha, em Tamarana (Norte), é casada e tem um filho pequeno, por isso, considera baixo o valor da bolsa fornecida pelo o Estado. Mesmo com dificuldades, ela pretende se formar para atuar na aldeia em onde vive sua família. ''Sentimos muita dificuldade na questão da adaptação mesmo. O convívio com as pessoas é muito diferente. Para mim mesmo foi muito difícil ter que deixar de falar kaingang para conversar com as pessoas.''

SAIBA MAIS

Segundo a Funai, são cerca de três mil índios universitários em todo o Brasil

Apesar do maior número de indíos estar concentrado no Norte do país (47,9%), a região conta somente com 7,1% de índios universitários. No Sul, a população indígena concentra 13% do total nacional; destes, 8,6% já passaram ou estão cursando universidades

Paraná conta com 120 estudantes universitários indígenas, a maioria deles na UEL (27) e na Universidade Federal do Paraná (UFPR), com 23 alunos

Fonte: Hellen Cristina de Souza, doutoranda em Antropologia