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Sex, Jan

Gazeta do Povo
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Alunas da UEM desenvolvem projeto de moda inclusiva, que facilita o cotidiano de deficientes e colabora para a integração social

  • Apoena Caicy, estudante do 4º ano, desenvolveu peças íntimas para mulheres cegas

Aproximadamente 45,6 milhões de brasileiros possuem algum tipo de deficiência, segundo o último Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Destes, 13,2 milhões têm deficiência motora e outros 35,7 milhões, deficiência visual. Apesar dos números expressivos, as pessoas com deficiência ainda enfrentam problemas simples, como a falta de uma roupa adequada às suas limitações.

Atentas a essas necessidades, duas estudantes de Moda da Universidade Estadual de Maringá (UEM) desenvolveram projetos de moda inclusiva, que tem como objetivo facilitar o dia a dia e garantir autonomia aos deficientes. Mesmo que funcional, a moda é capaz de criar identidade e integrar um indivíduo socialmente, de forma adequada a cada ocasião. Os públicos-alvo das duas estudantes são crianças e adultos com paralisia cerebral e mulheres cegas.

Troca de roupa

Em quase dois anos de pesquisas dedicadas a um projeto de iniciação científica, Caroline Veronez, aluna do 3.º ano, desenvolveu peças exclusivas para pessoas com paralisia cerebral. As peças foram estudadas para atender diferentes tipos de comprometimentos motor. Em comum, o público-alvo da estudante tem a pouca flexibilidade, o que dificulta a troca de roupa.

Caroline precisou desenvolver peças com aberturas laterais, de fácil remoção, mas que fossem confortáveis. No entanto, soluções que inicialmente pareciam razoáveis se mostraram inadequadas. “Achava que se criasse blusas com aberturas frontais, com zíper, iria facilitar a troca da roupa.” Mas Caroline percebeu que fechos metálicos poderiam causar machucados. “Quem tem paralisia cerebral dificilmente consegue sustentar a coluna e a cabeça. Por isso, o zíper poderia criar um atrito e ferir a pele.”

A mãe de um dos voluntários do projeto, Fátima Sodi, conta que em dias de muito frio, o filho Thiago só conseguia sair de casa enrolado numa coberta. “A gente não consegue colocar uma blusa sobre a outra porque os membros dele são muito rígidos.” Caroline aponta o caso de Thiago como um dos exemplos da necessidade de adotar a moda inclusiva na vida dos deficientes. “Além de proteger do frio, a roupa adequada é capaz de integrá-lo socialmente também.”

Já a estudante do 4.º ano de Moda da UEM Apoena Caicy desenvolveu um projeto para mulheres cegas. Segundo Ana Caroline Martins, orientadora do projeto, o objetivo é dar autonomia a essas mulheres e resgatar memórias. A estudante desenvolveu estampas em braile, combinou tecidos de texturas diferentes e cheiros. “A Apoena utilizou a sinestesia para resgatar imagens gravadas na memória dessas mulheres”, explica a professora.

Mercado

Adaptações encarecem peças e afastam possíveis fabricantes

Para proporcionar conforto, Caroline Veronez lista uma série de detalhes que foram fundamentais para seu projeto de moda inclusiva: jeans com lavagem especial – para tornar o tecido mais macio e evitar assaduras – malha de bambu, mais fina e macia do que a de algodão, mangas e calças com aberturas laterais. Tudo foi desenvolvido a partir de materiais doados por fabricantes de roupas de Cianorte, cidade onde vive Caroline. “Se não fosse assim, seria inviável, já que o custo desses materiais especiais são muito caros.” O alto custo dos materiais e da produção das peças, além da baixa procura são apontadas como as causas para a falta de interesse dos fabricantes em produzir as peças funcionais.

Existe mercado

De acordo com o Sindicato da Indústria do Vestuário de Maringá, segundo maior polo de vestuário do país, não existe nenhuma fábrica no Brasil especializada em moda inclusiva para deficientes físicos. Tampouco existe uma fábrica especializada em lingerie para deficientes visuais, segundo as pesquisadoras da UEM.

Até o ano passado a professora do Serviço Nacional de Aprendizagem (Senai) de Cianorte Leny Gonçalves fazia roupas especiais sob encomenda. “Também não houve interesse por parte das empresas em investir em peças funcionais”, lamenta.

Ana Caroline Martins defende que o baixo investimento no setor o torna um bom nicho a ser explorado.

Atualmente, marcas europeias fazem peças para pessoas com deficiência. Mas o preço por lá também é alto. Um vestido de algodão da britânica Xeni, por exemplo, pode custar 180 libras, cerca de R$ 537.

http://www.gazetadopovo.com.br/m/conteudo.phtml?id=1433865&tit=Eles-tambem-tem-o-direito-de-estar-na-moda