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06
Qui, Ago

Gazeta do Povo
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Pesquisadores taiwaneses descobriram um modo de evitar que a dengue clássica assuma as formas mais graves da doença – a dengue hemorrágica ou a síndrome do choque da dengue. A chave para compreender as formas mais letais da doença é uma substância, a CLEC5A, presente na membrana das células infectadas pelo vírus da dengue. Ela reconhece a presença do invasor e dispara um complexo mecanismo imunológico que culmina na liberação de citocinas pró-inflamatórias, proteínas capazes de inflamar tecidos. O problema ocorre quando o organismo perde o controle sobre esse processo. Surge então o quadro hemorrágico ou a síndrome do choque da dengue.

Na pesquisa, publicada ontem no site da revista Nature (www.nature.com), camundongos infectados receberam injeções de anticorpos para neutralizar a CLEC5A, que impediam a interação da substância com o vírus da dengue. A taxa de mortalidade dos animais diminuiu 50%, confirmando a hipótese de que a técnica é eficaz para controlar a inflamação fatal.

Os cientistas taiwaneses utilizaram camundongos geneticamente modificados, mais propensos a formas severas de infecção viral. Por isso, sempre desenvolviam a forma hemorrágica da doença.

Outros receptores da membrana celular, semelhantes à CLEC5A, podem facilitar a entrada do vírus no macrófago (principal tipo de célula atingida), mas desempenham um papel importante na liberação de substâncias como o Interferon-a, essencial para que o organismo vença a guerra contra o vírus. “O desafio era controlar a inflamação, sem diminuir as proteções antivirais das células”, afirma Shie-Liang Hsieh, co-autor do estudo e pesquisador do Instituto de Microbiologia e Imunologia da Universidade Nacional Yang-Ming, em Taipé (Taiwan). “Felizmente, descobrimos que o bloqueio da CLEC5A não interfere na resposta natural ao vírus. Levará de três a cinco anos para que a terapia seja aplicada em seres humanos.”

Para o pesquisador Marciano Paes, do Laboratório de Imunopatologia do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio, a previsão é excessivamente otimista. “Uma terapia como essa talvez leve de cinco a dez anos para ser usada de forma abrangente”, aponta.

Ana Maria Sell, professora do Departamento de Análises Clínicas da Universidade Estadual de Maringá, concorda que a previsão de Hsieh é otimista, mas considera a terapia viável e elogia o trabalho “meticuloso” dos cientistas de Taiwan.