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Qui, Nov

O Diário do Norte do Paraná
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O acesso à universidade pública e gratuita ainda não é para todos. Na Universidade Estadual de Maringá, dos 11.432 estudantes que responderam um questionário socioeconômico ao ingressar na graduação, 205, ou 1,8% do total, declararam ser negros.

Dados do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 3,4% da população do município é negra. A implantação de cotas raciais da UEM já foi debatida e recusada. O sistema é realidade outras instituições de ensino superior do País.

A UEM tem hoje 14.641 estudantes matriculados na graduação. É a universidade mais conceituada do Paraná de acordo com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível (Capes) e uma das melhores do País no ranking internacional Webometrics Ranking Web of World Universities.

 

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Câmpus da UEM em Maringá: sistema

de cotas raciais não é aceito

Em uma manhã de terça-feira, em frente do Restaurante Universitário da instituição, Kevy Alessandra Salviano, 21 anos, foi a uma das únicas pessoas negras a passar em uma hora movimentada. Com um grupo de colegas – todos brancos -, a aluna do segundo ano de Administração contou ser uma das três negras que estudam em seu bloco.

 

"E uma delas não é brasileira. Na minha sala mesmo, só eu. É estranho, mas vivencio isso há muito tempo. Mesmo quando estava na escola pública eram poucos os negros", explica.

Depois de quatro vestibulares, Kevy se tornou aluna da UEM em 2010 graças à cota social. Para ela, a dificuldade era a prova. Agora que está no curso que escolheu, os problemas maiores são com a disciplina de cálculo.

Assim como os colegas de Kevy, os brancos correspondem a 76,58% dos alunos de graduação. É uma porcentagem maior do que a população branca de Maringá, que é de 70,84%, segundo o IBGE.

Thiago Mendonça, 21, estudante de Química, não precisa pensar sobre o número de negros na sua sala: "Nenhum", rebate. "É complicada essa questão, é um problema histórico. Mesmo assim é estranho uma universidade pública ter tão poucos negros. Também não vejo nenhum no bloco em que estudo. Pelo menos não nesse horário [manhã]."

O professor e assessor de Promoção da Igualdade Racial no município, Ademir Felix de Jesus, garante que os números expõem uma realidade histórica da sociedade brasileira.

"A maioria da população negra, ou afrodescendentes – se incluirmos os pardos -, é de uma classe social baixa. Desde a abolição da escravatura, em 1888, ficam à margem da sociedade. O negro começa a trabalhar mais cedo. Quando chega no ensino médio, por exemplo, já procura um ensino profissionalizante para poder se inserir o quanto antes no mercado de trabalho e muitas vezes a universidade fica distante dessa realidade", afirma.

Para tentar mudar essa realidade, em 2004 foi protocolado um pedido para a implantação do sistema de cotas raciais e sociais na UEM. Em 2008, o Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão (CEP) aprovou a Resolução nº 12, regulamentada pela Portaria nº 233/2009-GRE, que institui a reserva de 20% das vagas oferecidas no vestibular para estudantes de escolas públicas de classe social baixa.

Quanto à reserva para negros não houve consenso e foi superada com o argumento que toda a população de baixa renda, inclusive negros, seria beneficiada com o sistema de cotas sociais.

Para o professor, insistir para a implantação de cotas raciais naquela época arriscaria perder o conquistado, já que o debate era acalorado. "Mas, hoje, com 2 anos de implantação podemos ver que ainda são poucos os negros na UEM", alega.

As cotas começaram a valer para o ano letivo de 2010. Dos 205 negros matriculados nos cursos presenciais da instituição, além de Kevy, outros 31 negros ingressaram pelo sistema de cotas sociais.

A pró-reitora de Ensino da UEM, Edneia Regina Rossi, acredita que ainda é muito cedo para falar se as cotas são ou não eficientes. "Há uma comissão de acompanhamento desse sistema na UEM. As cotas ainda são muito novas na instituição, mas na época foi algo amplamente discutido e optou-se pela reserva social por acreditar que ela ajudaria a solucionar a questão", afirma.

Ao ser questionada sobre o motivo de haver apenas 205 negros declarados em uma instituição com mais de 14 mil alunos na graduação – 11.342 declararam a cor de pele -, a professora sustenta que não há vagas para todos estudantes que concluem o ensino básico.

"Também seria preciso um estudo sobre quantos negros acabam o ensino médio e estão disputando uma vaga no vestibular da UEM. Para nós a cor da pele não importa", acrescenta.

 

‘Situação de discriminação e exclusão social'
Marivânia Araújo >> Professora-doutora de Ciências Sociais da UEM e coordenadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares Afro-brasileiros

O Diário - A senhora participou dos estudos para implantação de cotas na UEM. Como foi a discussão?

Ocorreram primeiro na Câmara de Graduação em um clima de discussão e esclarecimentos do que são as cotas raciais nas universidades. Mas elas não foram aprovadas. Durante todo o debate sobre as cotas raciais houve aqueles que defendiam as cotas sociais nas universidades. E essa foi a decisão vencedora.

O Diário - Por que as cotas sociais foram aprovadas e as raciais rejeitadas?

A maioria dos conselheiros da Câmara de Graduação e, mais tarde, da Câmara de Pós-Graduação, foi contrária às cotas que levam o critério da cor como decisivo. Isso aconteceu porque é muito forte em nosso País a ideia de que vivemos em uma democracia racial, que não há racismo e que a cor não seria uma barreira para o ingresso dos negros em nossas universidades. É forte o pensamento que os obstáculos são exclusivamente sociais, que é somente a pobreza o impedimento da ascensão social dos negros brasileiros. Mas é interessante lembrar uma pesquisa recente do IBGE que mostra que a cor das pessoas é um elemento discriminatório em todos os espaços da nossa sociedade, principalmente no trabalho.

O Diário - As cotas sociais sozinhas garantem o ingresso de negros na instituição?

Não. Elas provavelmente promoverão um aumento do ingresso de negros nas universidades, mas ele será muito pequeno, quase que insignificante. Uma questão importante é a da reparação devida à população negra no Brasil. Não se trata apenas de pobreza, mas de se reparar os séculos de trabalho escravo, da submissão forçada, invisibilidade atribuída a todos os negros em nosso País. As cotas sociais na UEM foram um avanço. Nós estávamos atrasados, é importante aumentar o número de alunos de diferentes classes sociais na universidade, pois a educação é, sem dúvida, um meio para a ascensão social e econômica. Todavia, é preciso continuar avançando, incluir negros no universo universitário, em todos os cursos. Esse é um passo para termos uma sociedade justa e verdadeiramente igualitária.

O Diário - Os cursos que têm a maior presença de negros, como Ciências Sociais, não são os mais concorridos da universidade.

Isso é um dos reflexos desse processo histórico. Ou seja, os negros estão nos cursos considerados de menor prestígio devido a uma situação de discriminação, exclusão social e dos limites estreitos oferecidos aos negros no Brasil. Gostaria de lembrar que os vestibulandos que disputam vagas por meio das cotas fazem as provas. Não são aprovados sem uma avaliação.

 

Saiba mais

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http://maringa.odiario.com/maringa/noticia/491913/dos-14-mil-alunos-da-uem-205-se-declaram-negros/