O Diário do Norte do Paraná
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Na opinião da psicóloga Adriana Porcu, o fato de o assassinato da menina ter ingredientes que se identificam com a realidade de qualquer um pode explicar motivo de tanta comoção


 

O que o "caso Isabella", como vem sendo tratado pela mídia, tem de diferente de tantos outros crimes que ocorrem diariamente no País? Por qual razão outros casos de violência contra crianças não ganham as páginas dos principais jornais, tampouco ocupam horários nobres nas cadeias de televisão?

Que sentimento é capaz de transformar pessoas comuns que não têm qualquer vínculo com as famílias envolvidas no crime - em um primeiro momento as principais interessadas, além da polícia, na elucidação do assassinato - em justiceiros de plantão?

O Diário conversou com profissionais da saúde e das ciências humanas para tentar compreender alguns pontos. A comoção social provocada pela morte da menina, atirada do 6 º andar de um edifício em São Paulo, é o primeiro deles.

Na avaliação da psicóloga Adriana Furlan Porcu, o choque inicial foi provocado pela brutalidade da ação. Afinal de contas, segundo ela, não é todo dia que uma criança é arremessada pela janela, possivelmente pelo próprio pai.

Além disso, os ingredientes mais marcantes do crime se identificam com a realidade de muitas pessoas: uma gravidez na adolescência cuja relação não foi assumida e a posterior recomposição familiar.

"Quantos casos conhecemos assim? Quantos jovens estão entrando na vida adulta despreparados para as responsabilidades que isso implica?", reforça a psicóloga.

Para a doutora em História e professora do Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Ivana Veraldo, vivemos a era da infantilização do adulto. "O desejo atual das pessoas é de prolongar a infância e a adolescência, que deixaram de ser períodos de transição e aprendizado para o mundo adulto e ganharam status próprios", comenta ela.

A lei da física que impede dois corpos de ocuparem o mesmo lugar no espaço também vale para os corpos "sociais". Ao mesmo tempo em que a referência do ser adulto, que responde por seus atos e assume suas responsabilidades, começou a ser questionada, a criança passou a ser o centro da sociedade e da família. Investia-se, assim, no "adulto de amanhã" como a garantia de um mundo melhor.

A psicóloga Adriana constata que o investimento ficou só na intenção. "Este futuro está caótico. Da vida, o jovem só quer prazer. Até poucos anos, entrar na vida adulta significava ter ganhos. Hoje em dia não é mais preciso, há sempre alguém para assumir as responsabilidades do outro."

A imagem idealizada das figuras materna e paterna é, no entendimento da psicóloga, mais um componente que dificulta a compreensão da carga emocional necessária e exigida pela vida adulta, que também é insuficiente, em muitos momentos, para impedir que os pais firam os filhos. "Nenhum pai no mundo recebe vacina de equilíbrio emocional quando o filho nasce", diz ela.