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Sáb, Set

O Diário do Norte do Paraná
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A presidente do Conselho Municipal Antidrogas de Maringá, psicóloga e professora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Maricelma Brégola, considera que o imediatismo, aliado ao individualismo e à falta de relacionamento, favorece o aumento da procura pelas drogas de hoje. A falta de limites é outro fator apontado como prejudicial.

"Os adultos é que têm problemas para colocar limites, não são as crianças e os adolescentes que não têm limites", avaliou Maricelma, que é casada e mãe de dois filhos. Como profissional, atua no tratamento de dependentes químicos há 18 anos na UEM, onde foi criado o primeiro ambulatório para dependentes químicos de Maringá.

Esta semana, Maricelma entregou aos vereadores, em nome do Conselho Antidrogas, o relatório da III Conferência Municipal sobre Drogas, em que se propõe, entre outros, a criação de uma Secretaria Municipal sobre Drogas para unificar e fortalecer o trabalho da prevenção, do tratamento e da repressão na cidade.

Longe do trabalho e da busca de soluções para um problema que aflige a sociedade, Maricelma, uma jovem senhora bem humorada, conta que tem aprendido a cozinhar . "Antes tinha resistência, agora percebi que é algo bem prazeroso."


O diário - As drogas são um problema de quem?

Maricelma Brégola - De todos nós. Mas gostaria de comentar a pergunta porque é interessante. Normalmente se coloca que as drogas são um problema. Mas as drogas são as drogas, são os medicamentos. Os medicamentos são um problema? Muitos medicamentos são utilizados para a resolução de problemas. Então as drogas pura e simplesmente, em si não são um problema. O tabaco é o problema. Não, o tabaco não é o problema.

O problema é como vamos lidar com ele, como nós usamos, assim como o álcool. Na maioria dos rituais religiosos vamos encontrar a bebida alcoólica e neste determinado momento ela não é um problema, pois tem uma função importante para as pessoas.


A senhora acredita que é possível acabar com os problemas causados pelas drogas?

Acabar? Não acredito. Podemos diminuir bastante, porque nunca vamos ter uma sociedade sem problemas. Para acabar com um problema que diz respeito a todas as questões, teríamos que pensar numa sociedade sem probelmas, mas isto não existe. Porém, podemos diminuir. Quando falamos de Maringá, por exemplo, os números da criminalidade de hoje não se compraram aos de pouco tempo atrás. O que precisamos saber é o que tem ocorrido para o problema ter aumentado.


Dentro deste contexto, é possível responder porque aumenta a cada ano o número de usuários de drogas?

Temos uma realidade social muito difícil. Dentro desta realidade temos uma dificuldade econômica e temos uma dificuldade de relacionamento. A simples conversa de uma pessoa a outra, hoje, não é uma coisa fácil. E se hoje uma pessoa, para se relacionar, ter amizade com outra, tem dificuldade, isso vai facilitar o uso de alguma substância para ajudar a lidar com estas situações.

Também vemos situações familiares complicadas pela questão de relacionamento ou econômica e, isto favorece a busca de soluções imediatas, que são uma proposta da droga. Na questão econômica sabemos, infelizmente, quanto o tráfico é uma atividade lucrativa. E hoje vivemos numa sociedade capitalista e individualista em que a pessoa só vai ter valor se for bem sucedida, tiver uma boa roupa, morar bem. Aí é que a pessoa vai ter respeitabilidade. Isto propicia que eu me arrume de alguma forma, independente de como.

O número de ofertas, hoje, também favorece o uso das drogas. Tem muita disponibilidade, não é uma coisa difícil de encontrar.


Também percebemos, hoje, que vivemos numa sociedade imediatista, com tudo rápido. Isto também colabora para o uso das drogas?

Sim. É tudo imediatista. Tudo tem que ser feito rápido para deixar tudo bem. Se você tem qualquer problema, só se pensa como é que se pode resolver e rapidamente. Não se tem mais tempo para estar pensando, para ver onde está o problema e como ele pode ser resolvido. Não se tem mais tempo para isto, tem que resolver.


Dentro do trabalho feito contra o uso das drogas, o que é mais importante: prevenção, tratamento ou repressão?

Atualmente, não dá mais para dizer o que é mais importante. Em outra situação, diria que é a prevenção. Mas na situação de hoje, temos que ter prevenção, tratamento e repressão de forma intensa e não saberia dizer qual delas é mais importante. Hoje, não temos mais tempo para a prevenção. Crianças de 9, 10 anos estão dependentes.

Adolescentes de 15 anos têm sido apreendidos. Claro que temos que estar muito preocupados com a prevenção. Mas antes, falávamos de prevenção no Ensino Médio e hoje temos que falar de prevenção no Jardim da Infância. E o tratamento hoje temos uma demanda muito grande.

Na emergência psiquiátrica é altíssima, atendem em torno de 70 pessoas por dia. E os que vão direto no hospital e os que procuram diretamente as comunidades terapêuticas e os que nos procuram na UEM. E os que não procuram? E tem o problema do tráfico, que precisa de repressão.

Hoje temos que trabalhar juntos nestas três pontas de forma bem dividida. Mas se analisar dados econômicos, do dinheiro usado para combater as drogas, 80% vai para repressão e 20% para prevenção e tratamento. Isto é um dado de 2006. Esta desigualdade não dá mais. Tem que distribuir isto e trabalhar de forma integrada.


Qual a posição do Conselho Municipal Antidrogas sobre a possibilidade de se criar a Lei Seca em Maringá?

A priori é favorável, pois tudo tem limitação para ser comercializado. As farmácias cumprem limite de horário, os mercados, o comércio. A sociedade cumpre os limites de horário em função de uma série de coisas que visam o bem das pessoas. Vou pedir um favor para vocês da imprensa. Não intitulem Lei Seca, mas Lei de Limite de Horário, pois é apenas uma lei que coloca limites.

Uma das falas dos pais hoje é sobre a dificuldade em se por limite nos filhos. Parece que ninguém mais sabe colocar limite em nada. Hoje é assim, trabalha-se demais, fala-se demais, come-se demais, faz-se muito exercício. Tem que ser tudo demais, mas sabemos que tudo o que é demais não é legal. O que precisamos é regulamentar as coisas e a lei é para isto. Não é nem para não ter e nem para ter demais. É para haver um equilíbrio.


É possível afirmar que o crack é o grande mal do início deste século?

Com certeza é um dos grandes. Em termos de droga, é considerado uma das piores, no que diz respeito aos efeitos, à composição. O crack é o lixo, a parte ruim da coca, que já é uma droga com grande poder de dependência, destruição e alteração. E o crack causa uma dependência maior, o efeito no organismo é maior e destrói muito mais. E, até agora, não temos usuário do crack, que é aquele que usa e, depois de um tempo usa de novo.

O crack não permite isto, ele causa uma dependência mais rápida. Temos pessoas que se tornam dependentes na quarta , terceira vez que usam e nem uma outra droga é assim. O crack definha a pessoa.


Como é a reinserção de um dependente químico na sociedade?

A reinserção é sempre difícil, qualquer que seja o pro blema. O dependente químico vai entrar na dificuldade da sociedade em lidar com o diferente. E muitos dependentes trazem a questão da saúde e da criminalidade. Mesmo o alcoolista é caracterizado como alguém que não vai conseguir. Sempre se tem um preconceito de que a pessoa não vai produzir e, desta forma, se erra ao valorizar a incompetência na reinserção.