O Diário do Norte do Paraná
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Pouco difundida, música eletroacústica luta contra falta de patrocínio; em Maringá, compositor e professor da UEM explica gênero e critica a música eletrônica de festa


 

Música eletroacústica. Pelo nome, o leitor pode achar que nunca ouviu uma composição do gênero. De fato, talvez nunca tenha mesmo. É que, embora a produção na área exista no Brasil e no mundo, o material dificilmente chega até o público médio.

A dificuldade faz com que o número de apreciadores não aumente e, por conseqüência, condena o gênero ao limbo de vertentes culturais que pouco recebem incentivo financeiro para realização de shows e gravação de CDs. Sem patrocínio, a conquista de espaço e ouvintes é mais suada. A falta de um evidencia a falta do outro e vice-versa.

Conrado Silva, fundador e secretário geral da Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica, explica que, em virtude da redução de investimentos estatais nos últimos anos, a quantidade de ouvintes e eventos de ME (a sigla pela qual o gênero é também conhecido entre os músicos que a praticam no País) estagnou. "O público cresceu nos anos 80 e 90, quando conseguíamos mais dinheiro", relata. "Hoje [empresas que se valem da] Lei Rouanet e outras só se interessam por retornos. Se não há perspectiva de lucro monstruosamente grande, não há negócio."

Para Silva, que, além de um dos percursores da ME no Brasil, é professor do Instituto de Artes (IdA) na Universidade Brasília (UnB), uma platéia de 200 pessoas pode parecer pequena, mas é numerosa para a ME. "Conseguimos mais incentivo e público nas universidades, porque a maioria dos compositores trabalha nessas instituições", explica.

Mas, o que é ME? Trata-se de um gênero musical que utiliza, além de instrumentos, ruídos sonoros naturais e eletrônicos como matéria-prima. A faceta experimental é praticamente inquestionável, já que os compositores buscam estudar as propriedades do som.

Silva relata também que, juntamente com as dificuldades de divulgação da produção na área, estudos apontam que a falta de público também se dá pelo "medo do desconhecido". "O pessoal gosta do que conhece. Quando a estrutura musical é mais complexa, o público médio se afasta."

Historicamente, segundo a Enciclopédia Itaú Cultural, as sementes da ME foram plantadas logo após a Segunda Guerra Mundial. Em 1948, o francês Pierre Schaeffer começou a realizar uma série de pequenos estudos musicais, conhecidos como Concerts de Bruits, para a Radiodiffusion-Télévision Française (RTF). Como a intenção era estudar o som, ele realizou montagens de ruídos diversos, como os de uma porta rangendo, passos e máquinas, buscando harmonizá-los musicalmente. Dessas experiências nasceu a música concreta.

Enquanto Schaeffer descobria que músicas poderiam ser feitas utilizando sons do dia-a-dia, o trio formado pelos alemães Herbert Eimert, Robert Beyer e Werner Meyer-Eppler, que mais tarde se tornou um quarteto com Karlheinz Stockhausen, fundou um estúdio musical em Colônia, que se tornou o berço da música eletrônica. Eles também realizavam montagens de sons, mas, ao contrário de Schaeffer, a matéria-prima eram ruídos de origem eletrônica, gerados por osciladores elétricos, como ondas sinusoidais.

Em pouco tempo, já no final da década de 1950, as duas vertentes se mesclaram, dando origem ao termo música eletroacústica. "Havia aqueles mais radicais que queriam manter a pureza de cada movimento. Mas, em geral, desde o início, compositores se utilizavam de ambas as vertentes em seus trabalhos", explica Marcus Bittencourt, doutor em Composição e professor do Departamento de Música da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Ao mesmo tempo em que não é conhecida pelo público, a ME é popular, ainda que de forma anônima. É que muitos elementos da ME foram, ao longo das décadas, apropriados por outros gêneros musicais que são consumidos em larga escala, desde o pop duvidoso de Britney Spears até as experiências sonoras da islandesa Björk e da francesa Emilie Simon. "Os sintetizadores e softwares de áudio, hoje muito conhecidos e usados, foram em primeiro lugar pensados para a ME e não para a música popular", conta Silva, que, na década de 1970, trouxe o primeiro sintetizador para o Brasil.

A utilização de montagens a partir de ruídos naturais e eletrônicos é comum nos álbuns de Björk e Emilie Simon, mas não têm a mesma carga de experimentalismo que define a ME. "Elas utilizam elementos concebidos especialmente para a ME, mas, ao mesmo tempo, fazem uma série de concessões para conseguir público maior. É uma iniciativa comercial", comenta Silva.

Já a conhecida música eletrônica que faz a festa de muitos jovens em casas noturnas não é, para Silva, genuinamente eletrônica. "É apenas um acompanhamento sonoro. É sujeira", opina. Mas, segundo ele, há compositores nessa área que utilizam conceitos da ME de forma criativa e inteligente.

Bittencourt concorda com o professor da UnB e complementa: "São poucos os DJs que sabem fazer boa música eletrônica. DJ Spooky é um deles. Músicas de tambores de tribos africanas são mais ricas musicalmente do que as peças eletrônicas executadas em festas. Em geral, arte de qualidade não vende", comenta.

Mesmo com tamanha apropriação, a essência do gênero se mantém viva, por meio de nomes como o de Conrado Silva, Flo Menezes, Jocy de Oliveira, Jorge Antunes, Reginaldo de Carvalho, Tim Rescala e tantos outros. Para eles, a eletroacústica não morreu, apesar das dificuldades, e permanece na forma de estudo constante das sonoridades que estão aqui, aí, acolá, por toda a parte.