O Diário do Norte do Paraná
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Conceito de que velhice é a melhor época da vida é refutado por especialistas, por mascarar aspectos negativos da idade; ATIs da cidade são elogiadas, mas também geram preocupação



 


"É irônico: a vida só acontece através do tempo. Mas toda a vida é uma luta para impedir que o tempo passe". Em poucas palavras, o educador, psicanalista e filósofo Rubem Alves revela a sutil diferença entre o natural e biológico envelhecimento e a cultural e ranzinza velhice.

Pedagoga da Universidade Estadual de Maringá (UEM), integrante da comissão para instalação da Universidade Aberta da Terceira Idade (Unati) na cidade e uma das organizadoras do I Simpósio de Gerontologia, realizado na semana passada, Regina Taam acredita que manter a disposição para a vida é o que realmente diferencia um entendimento do outro.

Para tanto, é preciso que as políticas públicas sejam focadas em oportunidades de participação efetiva das pessoas com mais de 60 anos na vida social, política e econômica da comunidade, permitindo a cada um ser tudo o que foi - e ainda é - capaz de ser.

"Com o passar do tempo, quem é bom fica melhor. Quem já é chato, fica insuportável", diz a professora, para quem a velhice é a simples continuação. De tudo.

Dos bons ou maus hábitos, das oportunidades ou da falta delas, das abastadas ou precárias condições de vida. Por estas e outras razões, o envelhecimento será tanto melhor quanto menores forem as desigualdades sociais.

"A velhice reflete uma vida vivida. Colocar o idoso como um ser apartado da realidade, uma categoria à parte, a 'melhor idade', é perigoso", diz ela.

A qualidade de vida depois dos 60 depende, na avaliação da professora, da atenção às necessidades básicas fundamentais em qualquer momento da vida, a exemplo de boa alimentação e educação, moradia decente, saneamento básico, condições dignas de trabalho, transporte público eficiente, calçadas íntegras, menos poluição sonora e visual, entre outros tantos fatores.


Envolvimento

Maringá tem quase 10% da população formada por pessoas com mais de 60 anos, de acordo com estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). São cerca de 30 mil em meio aos 331.412 habitantes.

Na opinião da presidente do Conselho Municipal dos Direitos do Idoso, Marilde Massocatto Dias, o envolvimento da sociedade civil na discussão das políticas públicas para essa faixa etária, a exemplo do que ocorreu no simpósio, é fundamental para o sucesso das ações.

"Até há pouco tempo, a questão dizia respeito apenas ao poder público e a voluntários", diz a presidente do Conselho do Idoso.

Para Marilde, conscientizar os mais novos de que a velhice não é um problema e sim a continuidade de uma história de vida ainda é o maior desafio. Um tanto desse estigma se deve, segundo ela, à separação que se fez entre atividades exclusivas para idosos que, de fato, mais os separavam da comunidade do que integravam.

Erani Carvalho, enfermeira responsável pelo asilo São Vicente de Paulo, que abriga 76 pessoas entre 60 e 100 anos de idade ? algumas por que a família não tem condições de cuidar, outras porque vivem sós no mundo ? também defende um outro olhar para a velhice: "O importante é saber viver com dignidade e saúde", diz.