a face esquerda

O autor é professor da UEM e fará noite de lançamento na sexta-feira (9)

O professor Reginaldo Benedito Dias, do Departamento de História da UEM (Universidade Estadual de Maringá) lança seu novo livro “A Face Esquerda da Cidade”, nesta sexta-feira, dia 9, às 19h30, no auditório da Aduem (Associação dos Docentes da Universidade Estadual de Maringá). A obra reúne um conjunto de oito estudos relacionados à história da atuação de partidos, movimentos e personagens do campo político de esquerda no município de Maringá no período de 1947 a 2000.

O intervalo compreendido nas cinco décadas que compõem o recorte cronológico do livro abarca três períodos da história nacional: a república democrática instituída pela Constituição de 1946, que se estende até 1964; a ditadura civil-militar de 1964; a fase da redemocratização em diante.

“O recorte cronológico se inicia no ano de fundação oficial de Maringá, quando já havia vestígios da presença de militância do PCB (Partido Comunista Brasileiro) no território do incipiente núcleo citadino. A práxis dessa geração, regida pela díade reformas-revolução, foi abordada privilegiadamente no segundo capítulo”, explica Reginaldo.

A Face Esquerda da Cidade: resumo da obra*

Depois de 1964, ultrapassada uma fase de desarticulação política imposta pela repressão que sucedeu o golpe de Estado que depôs o presidente João Goulart, formou-se uma nova geração de ativismo de esquerda em Maringá. Núcleos dessa militância interagiram com ou aderiram a agrupamentos adeptos da luta armada, cujas expressões, no âmbito do município, foram a AP e o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). A atuação de cada uma dessas organizações, subordinada a objetivos revolucionários, foi abordada, respectivamente, nos capítulos três e quatro.

A terceira geração é a formada na resistência democrática à ditadura e se estende pelas décadas posteriores à redemocratização do país. Sua práxis está, fundamentalmente, balizada pela mobilização por direitos políticos e sociais. No corpo do livro, está representada no quinto, no sexto e no sétimo capítulos, destinados à análise de mobilizações estudantis, sindicais e populares por cidadania. No quinto, o objetivo era a conquista da gratuidade do ensino e da democratização da Universidade Estadual de Maringá, fundada no auge da ditadura; no sexto, a defesa da escola pública contra o projeto privatista que grassava na década de 1990; no sétimo, a defesa de direitos trabalhistas em face de uma administração municipal orientada pelo ideário neoliberal.

O oitavo capítulo focaliza a trajetória do partido mais característico do período, o PT, desde sua origem em Maringá até a conquista da prefeitura municipal. Essa foi a única vez que um partido de esquerda chegou ao topo do poder político local.

A utilização recorrente de documentos produzidos pelo aparato repressivo do Estado como fonte para investigar alguns processos políticos motivou-me a efetivar o estudo que compõe o primeiro capítulo. Em outras palavras, sistematizei uma espécie de mapa do que a Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) havia produzido sobre os movimentos e agentes políticos que, pertencendo à órbita de sua vigilância, atuaram no território de Maringá.

A memória histórica de regiões de recente expansão de fronteira agrícola, como é o caso de Maringá, quase sempre é regida pelas narrativas centradas nas frentes colonizadoras e no mito do pioneiro. A despeito de sua representatividade na composição da identidade local, tais narrativas costumam ser homogeneizadoras, desprovidas de contradições. Acontecimentos e processos como os que foram contemplados nesta coleção ou são excluídos ou lembrados como fatores de perturbação da harmonia social.

Desse ponto de vista, este é um livro de história a contrapelo. A Maringá que emerge de suas páginas incorpora outras dimensões políticas e outros protagonistas, aos quais correspondem objetivos e sonhos diferenciados. Ao traçar o que chamei de “a face esquerda da cidade”, os capítulos oferecem várias expressões dessa face, sem excluir outras que existiram e que merecem posterior investigação.

Os capítulos abordam a contradição capital versus trabalho, as dimensões coercitivas do Estado brasileiro, a luta pela democracia e por direitos sociais, a resistência ao desmonte das estruturas públicas, o entrelaçamento das mobilizações por direitos de cidadania com projetos de reformas estruturais ou de revolução. As formas de ação incorporam greves com ocupação de fábrica, de unidades de trabalho ou de instâncias universitárias diretivas; a instituição de relações de poder que invertem a hierarquia presente em cada universo focalizado; manifestações de protesto regidas pela carnavalização da política; articulação do protesto social com ações de cunho potencialmente revolucionário.

Aos estudos sobre a história de Maringá, o livro sistematiza um alargamento fático e temático. Aos estudos sobre a história dos partidos e movimentos de esquerda, apresenta a contribuição de como temas de alcance nacional foram traduzidos e enriquecidos pela vivência de sujeitos concretos em um dado território, ele próprio forjado, em suas dimensões físicas e simbólicas, pelas lutas políticas realizadas, que foram, em parte, abordadas nas páginas que seguem.

 

*Texto enviado pelo autor.